bio/existência

Minha mãe partiu da Alemanha para viver no Brasil aos vinte anos de idade. Veio para casar-se com um jogador de basquete que ela havia conhecido durante as Olimpíadas de Munique em 1972. Nessa mesma década meu pai, brasileiro, casado, estudava música no conservatório de São Paulo.


o pai

No início da década de 80 os dois romperam seus casamentos para seguir a vida da busca da espiritualidade. Minha mãe pegou o famoso 'Trem da Morte' de São Paulo para Machu Picchu. Meu pai começou a viajar com um pequeno planador estudando o vôo dos pássaros migrantes em uma pesquisa que fazia como biofísico, em que se doutorou mais tarde em Bristol, Inglaterra.

Então o destino: seu aviãozinho quebrou. Ele pegou um trem que colocou em uma única cabine dois buscadores, que se conectaram e se apaixonaram... Os dois queriam ser monges (mas até hoje ninguém se tornou um).

Nasci um ano depois, no dia 29 de junho de 1981, em São Paulo e em casa. Assim queriam que eu viesse ao mundo, apenas na presença da mãe (claro) e do pai. Como o meu pai trabalhava em um zoológico naquele tempo, ele estava certo de que poderia manejar o nascimento de um ser humano também. Hoje não há dúvidas quanto a isso, aqui estou eu!


a mãe

Dos seis meses de idade até meus quatro anos nós moramos em Bristol e depois voltamos para São Paulo. Quando tinha mais ou menos uns oito anos, meus pais compraram um terreno na fronteira de São Paulo com Minas Gerais, no topo de uma montanha, com uma bela e lamacenta estrada de terra. Naquele lugar distante e intocado, eles formaram uma comunidade com outras pessoas que seguiam os mesmos ideais espirituais. Alguns anos depois, esse cantinho de mundo, no coração do Brasil, ficou conhecido como Retiro Tao Tien, ou traduzido para a nossa língua, Portão do Céu.

Foi lá que cresci, no mato. Todo dia depois da escola todas as sete crianças da comunidade iam cavalgar em pêlo em seus cavalos. Construíamos cabanas na floresta, pintávamos nossos cavalos e dançávamos em volta da fogueira.

Quando completei quatorze anos, meu pai "descobriu" que tudo o que ele realmente desejava, depois de ter sido matemático, físico e músico, era ser capitão de barco. Sendo assim, e assim decidido, ele e eu nos mudamos para Ubatuba, para dentro de um veleiro, enquanto minha mãe resolveu permanecer no solo firme das montanhas.

Quando completei 16 anos, tudo o que queria era ser independente, (como todos os adolescentes), então comecei a pintar índios e cavalos em camisetas, para vender em Trindade. Um pouco mais tarde, consegui um emprego em um restaurante, no horário após a escola. Em três meses aluguei meu próprio cantinho. Foi um período muito intenso de perguntas e questionamentos. Lia muito Fernando Pessoa e Drummond, e trocava poemas, escritos com amigas. Nós líamos os poemas umas das outras, em voz alta, com o peito estufado como se fossemos rainhas de um mundo autêntico e romântico. Eu já gostava de pintar, mas nenhum dos meus desenhos me agradava; achava-os feios, depressivos e distorcidos. Nessa fase inquieta de perguntas e busca, quase sem direção, senti necessidade de me retirar do mundo da água e da agitação e ir para uma terra quente, com uma energia mais fogo, um deserto. Vendi meu cavalo e, com a ajuda de algumas pessoas, fui para Austrália.

Lá vivia uma amiga de minha mãe que já tomara conta de mim na comunidade do Brasil. Ela agora estava vivendo no deserto em uma reserva aborígine. Morei com eles durante três meses, muitas vezes indo caçar nosso próprio almoço: canguru, lagartos, cobras e búfalos selvagens. Eles me contaram sobre a lua e sobre outros segredos do deserto. Depois desses três meses, minha amiga presenteou-me com uma passagem de ônibus que me permitiu rodar 12.000 km, e com um violão, instrumento que sempre sonhei tocar, mas que até então nunca havia tentado. Enfim, com uma mochila e um violão enorme nas costas lá fui eu. Acabei visitando muitas outras comunidades alternativas (e com muita gente que sabia tocar violão). Três meses viajando, aperfeiçoei meu inglês e aprendi a respeito dos meios alternativos para se viver, com pessoas e em locais muito especiais.

 


A criança

Seis meses depois retornei ao Brasil e então percebi que eu havia interrompido aquele processo de descobertas ao qual havia dado início. Sentia uma invasora necessidade de continuar... simplesmente continuar, como uma nômade.

Mas eu havia quase me esquecido da nômade que morava no meu sangue. Meus pais logo vieram com a idéia de comprar um carro na Alemanha, cruzar a Rússia e ir até a Mongólia e China à procura do mestre espiritual que minha mãe via em seus sonhos e que agora a chamava. Dois outros amigos meus e eu seguimos meus pais. Na Alemanha compramos um velho Ford Transit, por mil dólares, com duas camas e um fogãozinho montado em seu interior. Meus pais venderam o barco e compraram outro, menor e mais resistente.

No ano 2000, começamos então, com toda fé e inocência, a nossa peregrinação. Cruzamos a Áustria, a República Eslovaca, a Ucrânia, Rússia passando pela região da Sibéria e suas vilas xamanistas, o encantado Altai e suas montanhas e florestas virgens. Foram muitas aventuras, tivemos que fugir da máfia russa e nos refugiamos em um mosteiro ortodoxo. Graças às pessoas daquele mosteiro, pudemos prosseguir, pois eles escreveram em nossos carros a palavra "palomnik", "peregrino" em russo, o que nos tornou pessoas bem-vindas.


Descobrindo a Arte de Thangka

Em Ulaan Bataar, capital da Mongólia, visitamos o Mosteiro de Gandam, uma importante universidade monástica, onde fomos recebidos pelo professor de artes sacras que insistiu em nos mostrar o seu trabalho.

Ele nos conduziu a um prédio de arquitetura chinesa que parecia enfrentar a sobrevivência ao tempo como um velho mamute segurando as presas. O primeiro andar era escuro e assemelhava-se a um banheiro público. O segundo andar abria-se em janelas e à luz, que batia sobre telas coloridas. O silêncio predominava, até o momento em que senti uma brisa e me arrepiei com a voz do professor que sussurrava em seu pobre inglês: "Esta é uma arte sagrada, um caminho que pode levar à iluminação". Com arrepios na espinha eu sabia antes de pensar qualquer outra coisa, que "havia encontrado o meu caminho". O caminho que eu tanto procurava e questionava: o caminho espiritual através da arte.

Decidi ficar e estudar no mosteiro de Gandam, mas o professor foi mais rápido e disse que ainda tinha que aprender as coisas do mundo e depois, na hora certa, ir para Dharamsala, na Índia, onde ele mesmo havia estudado. Era lá que eu deveria ir para estudar a arte sagrada de Thangka. Mesmo assim, insisti em ficar na Mongólia. Sentira-me conectada àquele lugar, como com nenhum outro solo antes. Ulaan Bataar não era uma cidade agradável, mas era suficientemente perto dos nômades e do pequeno mosteiro de Twuhun, onde ficamos nas primeiras semanas. Meus pais haviam decidido permanecer em Twuhun durante o inverno, e eu poderia escolher entre Ulaan Bataar ou voltar ao ocidente com os meus outros dois companheiros, para juntar dinheiro e poder dar início a um período longo e certo de estudos na Índia.

Finalmente de volta a Munique, Alemanha, escrevi para o Instituto Norbulingka, a escola de arte em Dharamsala, Índia, perguntando se eles me aceitariam como aprendiz. Meu pedido foi logo recusado, pois o Instituto só aceitava tibetanos. Mesmo assim persisti com a idéia e durante os três anos em que permaneci na Alemanha aprendi a falar alemão, trabalhei e estudei Mídia e Design gráfico em Munique - sempre mantendo o foco em mente. Muitos diziam que eu estava sendo teimosa e que aquilo já se tornara uma utopia sem sentindo. Mas nem se desejasse, conseguiria parar de correr na direção pela qual o meu coração e a minha mente tanto ansiavam.

Finalmente, no fim do ano de 2002, o grande mestre que me guiava em sonhos veio oferecer a iniciação do Kalachakra em Graz, Áustria. Lá eu vi pela primeira vez Sua Santidade o Dalai Lama. Meu corpo tremia tanto que qualquer fragmento de dúvida ou temor desapareceu naquele instante.

Alguns meses depois o mestre veio a Munique também, e nosso encontro aconteceu de uma maneira muito mágica e especial.

Um dia, voltando do trabalho, cheguei em casa e não achei a chave da porta como combinado com minha amiga com quem morava. Resolvi então tentar encontrá-la no mercado; peguei minha bicicleta e fui. Ao chegar ao Centro, avistei uma aglomeração de pessoas em frente a um dos hotéis mais conhecidos da cidade. Juntei-me a essas pessoas querendo ver quem era o "famoso", e quando me aproximei vi que muitos eram tibetanos e que todos seguravam um katak (xale branco com estampa dos símbolos auspiciosos, dado em ocasiões especiais). Todos esperavam por Sua Santidade o Dalai Lama! Quando finalmente os carros pararam em frente ao hotel, de um deles saiu o monge doce e iluminado, manifestação de Chenrezig e pura compaixão. Apressei-me em desenrolar meu mala (rosário budista de 108 contas) do pulso e o estendi por entre a multidão para que fosse abençoado por Ele. No momento que Ele se aproximou, meu corpo tremia cada vez mais, até que as minhas mãos não conseguiram mais segurar o mala, prestes a cair, de repente, Sua Santidade o Dalai Lama veio a mim, acolheu meu mala em suas próprias mãos, encerrando-o firmemente entre os dedos, e disse-me, com um sorriso: "Mas, o que foi, criança, está com medo?"

Pouco tempo se passou e eu já tinha a passagem em minhas mãos. Meu mestre havia vindo me buscar e era hora de ir, sem dúvidas, sem medo. Deixei o trabalho, namorado e amigos no começo de 2003. Eu não tinha mais nada, nem mais medo - e que imensa liberdade senti! Finalmente.

India

Parti da Alemanha com minha melhor amiga: minha mãe. Ao chegar em solo indiano tudo parecia dar errado. O motorista do taxi quis nos deixar na porta de uma favela no meio da noite e ainda perdemos nosso trem e tivemos que ir em um outro junto aos mendigos e ciganos suados até a cabeça. Mas eu ria, eu ria e chorava - meu sonho se realizava.

 


Depois de horas, até dias... de avião, de taxi e ônibus chegamos a tão sonhada Dharamsala. Depois de situar-nos num hotel baratinho, fui logo visitar o Instituto Norbulingka - e o lugar era muito, mais muito mais belo que eu imaginava e não tive coragem de perguntar se poderia estudar ali.

Durante três meses trabalhei para uma Organização tibetana chamada Longsho,la também conheci Kelsang... que eu mal sonhava que um dia seria o pai do meu filho! Também me dediquei às aulas de filosofia com Geshe Sonam Rinchen na Biblioteca.

Mas foi depois de ficar semanas muito doente, minha mãe disse que voltaria. Eu não podia voltar... algo ia acontecer. Fui ao Norbulingka, entrei na sala da diretora junto com a ajuda de uma amiga canadense - e wow, o milagre aconteceu! Fui a primeira estrangeira aceita a estudar thangka pelo instituto fundado por SS o Dalai Lama. E... não fora a primeira a fazer o pedido...

Meio turno eu trabalhei no escritorio na área de web/print design e em troca eu podia estudar nos periodos da tarde... assim foram quase três anos completos. Meu professor não falava inglês e eu tão pouco tibetano... mas ele sabia de tudo que eu precisava aprender além de desenho: paciencia, dedicação e persistencia.

No inicio de 2006 Norbulingka organizou o maior evento que SS o Dalai Lama oferece: a iniciação do Kalachakra. Foram meses de trabalho corrido e durante o evento, todo o stuff se locomoveu para Amaravati, sul da India. Foi durante essa forte iniciação, a mesma que recebi um pouco antes de vir a India, que fiquei grávida.




Norbulingka

Voltei ao Brasil uns meses depois para o sítio dos meus pais em Minas Gerais (www.taotien.com.br) e Kelsang veio alguns meses depois também. Nosso filho nasceu em outubro. Lindo, um anjo, uma alma especial e cheio de ensinamentos.

Em setembro de 2007 recebi a oferta de coordenar as pinturas do temple de Lama Padma Samten no Rio Grande do Sul, Viamao na comunidade budista que ele guia. Minha família e eu nos mudamos para lá e comecei com os rascunhos e muita prece para que conseguisse realizar tamanho projeto. Com certeza guiada pelosmeus mestres espirituais, tudo correu maravilhosamente e o término esta previsto para 2010.

 

Escrevi um livro entitulado "Life and Thangka" publicado pela LTWA, India 2005 - esta a venda online. Em breve também será publicado no Brasil. Mais informações, entre me contato: tiffanihr@gmail.com


No workshop do Norbulingka, 2004



Tiffani pintando o templo do Caminho do Meio, Viamao, RS Brasil.

 

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